SANDRO MASSARANI
além do cotidiano
tópicos sobre narrativa
Saudades de Ditaduras?

É cada vez mais comum, já que o Brasil continua descendo a ladeira da miséria, ouvirmos de pessoas entre 50 e 60 anos que o país era melhor na época da ditadura, assim como idosos com mais de 80 ainda choram de saudades da época de Vargas (também uma ditadura). É a síndrome da nostalgia. Tudo que é antigo é melhor.

Não quero entrar no mérito dessa questão da saudade, mas acredito que o país sempre esteve no caminho do subdesenvolvimento, e o que vivenciamos hoje nada mais é que o resultado de uma bola de neve que não para de crescer desde que a nau de Pedro Álvares (na época ainda não tinha o sobrenome de Cabral) aqui aportou. A população cresceu, e a concentração de renda também. Simples assim, e a tendência é piorar cada vez mais, como podemos facilmente observar nas manchetes de cada dia dos jornais. Enquanto Kubitschek é badalado na televisão e jornais, provavelmente devemos estar pagando Brasília até hoje.

Há realmente algo de curioso na defesa da ditadura militar e de seus gloriosos adeptos, e volta e meia tenho que tirar o chapéu e sentir falta de uma ditadura em um ponto crucial que nem esses pseudo ditadores pararam para pensar: o alto valor da sua opinião. Como assim? Antes que vocês pensem que eu enlouqueci de vez ao relacionar valor de opinião com ditadura, tentem acompanhar o meu raciocínio.

Eu me sinto cada vez mais um inútil. Cheguei a conclusão de que vivemos na pior das ditaduras, a ditadura que você fala, fala, fala e ninguém te ouve. Eu posso chegar agora no meio da rua e mandar o presidente para todos aqueles lugares que as pessoas só vão concordar. Posso dizer que sou um satanista ardoroso e o máximo que pode acontecer é uma velhinha fazer o sinal da cruz. Posso me vestir com uma bandeira gigante da União Soviética e andar pela praia de copacabana que só irei provocar risos e não levarei nem uma pancada na cabeça. Nem umazinha. Vou estender essa situação a todos. Podemos dizer hoje que somos uns inúteis, e nossa opinião não mais importa. Podemos chamar isso, de uma maneira bem superficial, de ditadura da liberdade de expressão, ou da opinião aberta.

A sua opinião só importa se for relacionada ao seu desejo de consumir algum produto. Chegue em um departamento de marketing de qualquer empresa e diga que você prefere um celular com uma câmera ultra-tecno-científica-6 mega pixels de cor azul do pacífico que sua sugestão será pelo menos considerada. Grite que um produto é ruim e todos vão lhe dar ouvidos. Grite contra a impunidade da justiça e isso será um discurso ultrapassado. O mundo gira pela propaganda e pela economia de mercado. O valor de sua opinião hoje é baseado na quantia (ou falta dela) de dinheiro que você tem no bolso. Todos felizes pagando uma cama ou geladeira em 73221 vezes sem juros, sem nem se dar conta que o juros já vem embutido no preço.

Ah! Em uma ditadura eu teria que esconder com muito cuidado uma cópia maltrada e rabiscada do Manifesto Comunista. Minha voz poderia produzir trovões! Eu poderia me sentir um alguém, mesmo que não fizesse algum tipo de resistência. Na escuridão do meu sono eu poderia imaginar coisas terríveis que poderiam me causar problemas, como tocar o hino da Internacional Comunista na frente do congresso. Mas teria a certeza de que a minha opinião importaria. Mesmo que fosse para a pessoa ou instituição errada. E sabemos quantos morreram e foram torturados por causa disso. E hoje nem sequer chegamos perto de honrá-los. Deram sua vida por nada, graças a nossa inércia.

Obs: Sempre gosto de lembrar que não sou comunista ou marxista. Acho que tanto o capitalismo quanto o socialismo tem suas vantagens e desvantagens. O que realmente não gosto é do que se transformou o tanto o capitalismo quanto o socialismo na prática. Não contem comigo para defender o capitalismo selvagem atual nem o socialismo cubano.