SANDRO MASSARANI
além do cotidiano
tópicos sobre narrativa
Jesus e os Sistemas Econômicos

Talvez eu seja o mais religioso dos não religiosos. O tema me fascina e eu torço muito para que haja uma vida após a morte. Não possuo uma religião definida, e costumo dizer que sou adepto do Sandruísmo, ou seja, faço minhas próprias crenças. Minha simpatia maior é com o budismo, mas ainda bato o pé e não acredito que budismo seja uma religião.

Como obrigação de historiador, e é lógico, a teologia é fantástica, me vejo imbuído da missão de procurar entender e relacionar a religião com a sociedade, algo complicado de se fazer. Mas um fato muito intrigante, que volta e meia eu paro para refletir, é como a tão explorada figura de Jesus conseguiu ao longo do tempo passar de um socialismo primitivo para um culto selvagem do neoliberalismo atual. Realmente, hoje, Jesus está antenado na globalização.

Costuma-se dizer, ironicamente, que Jesus teria sido o primeiro socialista. Brincadeiras à parte, o cristianismo primitivo de Jesus, como cultuado pelos primeiros cristãos, realmente reflete uma idéia de igualdade. Porém, após a adoção do cristianismo pelo império romano, a figura de Cristo como propagador de uma sociedade mais justa vai desaparecer e os cristãos, antes perseguidos e obrigados a se esconderem em catacumbas, agora são os perseguidores e passam ainda a acusarem os judeus de assassinos do messias. O poder é doce.

Com o estabelecimento da cristandade na Idade Média, a religião passa a ser o ponto de apoio de uma sociedade basicamente dividida em três castas: Clero, Nobreza e Servos. O cristianismo, então, era utilizado para colocar os servos no seu lugar. Com Lutero e, principalmente, Calvino, o cristianismo, agora protestante, passa a valorizar a riqueza e o lucro, se encaixando perfeitamente com as aspirações de uma nascente e crescente classe social: a Burguesia. É a transição de uma idéia estática de socialismo para o dinamismo do capital.

Nesse mesmo século XVI, empolgados com as reformas religiosas, milhares de camponeses são massacrados, inclusive por Lutero, por defenderem o cristianismo do passado. Agora estava aberta a porta para o comércio selvagem dos juros ser praticado livremente, já que Deus escolheria somente aqueles com dinheiro. Agora, quando o mendigo bate à sua porta, você manda ele procurar um trabalho. Antes do protestantismo, o mendigo era a imagem de Jesus e você beijava os seus pés. Aliás, não custa lembrar que Cristo foi executado como perturbador da ordem, e com certeza hoje seria visto como um vagabundo. Bem, o que sei é que essa tendência capitalista da religião só se intensificou, e hoje em dia vemos uma proliferação de mini-templos com o único objetivo de solucionar o seu problema financeiro.

Reparem que eu não estou preocupado se Cristo existiu ou não, provavelmente nunca saberemos. Como já disse um dos maiores historiadores de todos, Marc Bloch, não mais importa saber se Jesus existiu ou não, mas sim por que as pessoas acreditam nele. Nas religiões atuais, moldadas no capitalismo do século XX, acreditam nele para preencher os bolsos de capital.