Mozart, Elias e a Sociologia de um Gênio
Sempre gostei e muito de música clássica. Ficava horas e horas na guitarra dedilhando e produzindo sons que eu achava que poderiam ser a próxima obra-prima do século, sons estes bastantes influenciados por J.S Bach.
Na verdade o meu compositor preferido sempre foi o Bach, e eu realmente fico fascinado em como sua música é tão matemática quanto bela, possuindo uma simetria fora do comum. Com Bach eu finalmente acreditei em Galileu, quando ele diz que o universo é racional e pode ser explicado pela matemática. Bach conseguiu. Porém, sua vida é meio sem graça, não daria um filme (não me recordo de nenhum) e rende apenas algumas biografias murchas (tenho algumas). Já o Amadeus...esse aí...
Há uma pequena livraria no térreo na Uerj, e eu sempre dava um pulo nela antes de voltar para casa. Não é nada de excepcional, mas nós sabemos como são as livrarias de universidades públicas, você sempre acha algo de seu interesse que nunca irá aparecer nessas gigantescas livrarias pomposas. Eu tenho uma teoria que para mim sempre se comprovou. Quanto maior a livraria, menos livros interessantes ela tem, principalmente livrarias escravas de público de Shopping.
Bem, eu estava olhando os títulos na seção de sociologia, quando me deparei com o livro do Norbert Elias chamado Sociologia de um Gênio, com um desenho meio obscuro de uma pessoa de perfil com uma peruca típica da época moderna. Norbert Elias é um dos meus intelectuais preferidos, e foram os dois volumes de sua obra O Processo Civilizador que me fizeram entender de vez como a História funciona (isso pode ser tema de outra coluna). Ao folhear o livro, percebi que era sobre a vida de Mozart, e que o grande Elias tinha falecido antes de terminá-lo. Por que Elias teria escrito sobre Mozart? Elias não era de escrever sobre coisas vazias e desinteressantes. Resolvi arriscar e comprar o livro, foi um desses meus típicos impulsos de compra.
Na medida que eu devorava insanamente as páginas, na medida que Elias tecia para mim a vida de Mozart, tão próxima de nosso cotidiano, retratando a luta de uma pessoa para ser reconhecida, para ser entendida, uma pessoa que deseja atenção e a busca em todas as direções, eu sentia uma tristeza cada vez maior. Não que Mozart não tivesse obtido um mínimo de reconhecimento em vida, ele era considerado, principalmente por entendidos e músicos como Haydn, como um grande compositor. Mas vejam bem, era o Wolfgang Amadeus Mozart, e nem emprego conseguia!
É lógico que entra aí a questão dos gênios que estavam à frente do seu tempo, vindo em mente principalmente o Van Gogh, e todo esse papo que nunca é analisado decentemente. Mas ao contrário do holandês, que não teve praticamente nenhuma chance de mostrar seu talento, Mozart possuía uma rede de contatos, tinha algum nome nos círculos da época, era maçom e já havia chamado a atenção do imperador austríaco. Mesmo assim não conseguiu penetrar na carcaça da nobreza austríaca.
Quando terminei o livro de Elias, comecei a me aprofundar mais e mais na vida de Mozart, a ponto de ter uma coletânea de suas cartas quando ele estava em Viena tentando a sorte, uma vida idêntica ao do desempregado que tenta manter a esperança. Veio também em minha mente a imagem do filme Amadeus, que eu lembrava muito pouco. Resolvi também comprá-lo. É na minha opinião talvez o maior filme já feito, e justamente por aproximar o gênio do mundano, e por causar um buraco em nossos pensamentos. Se isso aconteceu com Mozart, o que acontecerá comigo? É claro que o filme toma liberdades, mas descontando suas inverdades (Salieri nunca foi inimigo de Mozart), a mensagem central nos atinge como um míssil. A vida é injusta. E pronto. Essa deve ser a sociologia de um gênio.
Como o imperador José II(muito bem interpretado por Jefrrey Jones) diz no filme a Mozart (Tom Hulce), ao criticar sua música: "Muitas notas, meu caro Mozart".
Realmente, a vida tem muitas notas. Nem Mozart soube tocá-las.