SANDRO MASSARANI
além do cotidiano
tópicos sobre narrativa
Revista Veja, Guevara e um Jornalismo Amador

A Revista Veja número 2028 de 3 de outubro 2007 traz como matéria de capa a seguinte reportagem:"Che - Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa". Já pelo título podemos perceber a clara intenção de polemizar (para vender mais cópias). Porém, o que é pior, o texto escrito por Diogo Schelp e Duda Teixeira é totalmente vazio e amador, e busca com argumentos frágeis e parciais explicar o fascínio contemporâneo por Ernesto "Che" Guevara.

A questão principal não é gostar ou não gostar de Guevara, e sim a maneira como uma revista tão popular expõe o tema de maneira infantil e perigosa. Infelizmente, a Revista Veja vem apelando para capas chamativas e reportagens sem contexto nos últimos anos, provavelmente para chamar a atenção do cidadão, cada vez mais disperso em meio a tantas notícias. O maior exemplo disso foi uma edição logo após os ataques terroristas aos EUA em setembro de 2001, quando o editorial disse que vivíamos uma luta do bem (EUA) contra o mal (Bin Laden). Surreal.

Independente de simpatizarmos ou não com Guevara, vamos analisar as partes mais infelizes da reportagem, para nunca cairmos no erro de analisarmos a História de modo radical, ou preto ou branco. Para isso, utilizarei o texto que saiu no site da Veja pela Internet,  pois assim todos podem acompanhar, sem precisar comprar a revista.

O link da matéria é esse: http://veja.abril.com.br/031007/p_082.shtml
Eu a transformei em PDF para você não precisar acessar o site: Veja_Guevara.pdf

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Veja: "Che tem um apelo que beira a lenda entre os jovens dos cinco continentes."

A reportagem trata como um absurdo Guevara ser tratado como uma lenda. Por que Guevara virou símbolo de jovens no mundo inteiro? Por que até adolescentes norte-americanos usam sua imagem como forma de identidade?

Essa é uma resposta simples. A imagem de Guevara representa a luta contra um poder estabelecido, assim como os jovens também buscam lutar contra o sistema e se sentem injustiçados. No caso do guerrilheiro argentino foi a luta contra o capitalismo (sistema estabelecido), buscando implantar sua alternativa (o socialismo leninista-marxista). Pronto.

A grande maioria das pessoas se identifica com quem luta por uma causa difícil ou muitas vezes impossível. No caso de Guevara, ele obteve uma vitória importante, que foi a Revolução Cubana, e não se contentou, quis levar suas idéias para o resto do planeta, já que o socialismo, pelo menos em teoria, é universalista.

Logo, a imagem de Guevara é idolatrada por jovens, não por causa do Guevara em si, mas sim pela luta do menor contra o maior. Não custa lembrar que diversos filmes e livros utilizam essa premissa do fraco contra o forte, da vitória do "underdog".

Veja: "Como homem de carne e osso, com suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível."

Realmente não tenho como comentar essa parte devido ao adjetivo "desprezível". Esse tipo de adjetivo deve ser usado com muita cautela e apenas em casos extremos de textos pessoais e não em publicações teoricamente imparciais destinadas ao grande público. Lamentável.

Veja: "Por suas convicções ideológicas, Che tem seu lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história já arremessou há tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro."

Novamente uma linguagem pesada e totalmente desnecessária. Fidel e Stálin não foram bons teóricos, mas dizer que os escritos de Lenin, Trotsky e Mao estão no lixo chega a ser inacreditável.

Lenin é um dos maiores estudiosos no que se refere ao capitalismo, tendo analisado de forma minuciosa como funciona o imperialismo. Morreu com pouco tempo de governo, por isso não podemos saber como seria a URSS com Lenin. Até hoje Lenin é estudado por economistas e historiadores. Trotsky, criador do mesmo exército vermelho que derrotou Hitler, contribuiu para a idéia universalista do socialismo e Mao construiu as bases socialistas  da China atual, que é o país que mais cresce no planeta. Novamente não é um caso de se gostar ou não (eu não simpatizo com Mao, por exemplo), mas sim de reconhecer a importância dessas pessoas para a História. Além disso, todos os capitalistas inteligentes estudam teorias socialistas, seja para implantá-las de forma diferenciada, como o Estado de Bem-Estar Social ou anulá-las por completo, como o Neoliberalismo.

Veja: "VEJA conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas."

Já sabemos o porquê da imagem de Guevara ser popular (representa a luta contra o poder estabelecido). O rosto dele aparece no biquíni da Gisele Bündchen porque sua imagem vende, agrada aos jovens, e vivemos em uma sociedade de consumo. Já Maradona e Tyson travam uma luta contra o poder estabelecido, por isso se identificam com o Guevara. Tanto o craque quanto o boxeador são pessoas que vieram de baixo e não aguentam as pressões que sofrem, por isso se sentem injustiçados.

Veja: "O mito é particularmente enganoso por se sustentar no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante sua existência. Incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários - mesmo os que vestiam a mesma farda que ele."

Guevara era violento e matava sem pestanejar. Era um militante marxista puro, que acreditava que a revolução só seria obtida através da violência e da eliminação da burguesia. Não entendo porque a reportagem busca criticá-lo por isso. É algo que muitos sabem e mostra a fidelidade dele com a causa, seja ela válida ou não.

Veja: "Na versão mitológica, Che era dono de um talento militar excepcional. Seus ex-companheiros, no entanto, lembram-se dele como um comandante imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte, em guerras sem futuro no Congo e na Bolívia."

Dizer que Guevara não foi um guerrilheiro competente é ferir a história. Mesmo colecionando fracassos as suas teorias são concretas e foram usadas com muit eficácia na Revolução Cubana. Buscar validade em uma reportagem apenas com opiniões de ex-companheiros e exilados cubanos só poderia resultar em um artigo parcial. Por que não analisar os dois lados, para o leitor poder tirar suas próprias conclusões? É muito amadorismo. Quer empurrar uma opinião própria pela força.

Veja: "Em outra ocasião, Che foi procurado por uma mãe desesperada, que implorou pela soltura do filho, um menino de 15 anos preso por pichar muros com inscrições contra Fidel. Um soldado informou a Che que o jovem seria fuzilado dali a alguns dias. O comandante, então, ordenou que fosse executado imediatamente, 'para que a senhora não passasse pela angústia de uma espera mais longa' ".

Guevara matava pela sua causa. É uma época diferente da atual, onde o mundo vivia a Guerra Fria. Era um assassino, mas isso não significa, como no título da reportagem, que fosse uma farsa. O socialismo marxista é violento. Guevara manteve o mesmo comportamento até a morte, sempre fiel. Isso também cria o mito.

Veja: "Para se livrar dele, Fidel o mandou como delegado à Assembléia-Geral das Nações Unidas em 1964."

Trecho do discurso de Guevara na Onu em dezembro de 1964:

"Queremos aclarar, una vez más, que nuestra preocupación por Latinoamérica está basada en los lazos que nos unen: la lengua que hablamos, la cultura que sustentamos, el amo común que tuvimos. Que no nos anima otra causa para desear la liberación de Latinoamérica del yugo colonial norteamericano. Si alguno de los países latinoamericanos aquí presentes decidiera restablecer relaciones con Cuba, estaríamos dispuestos a hacerlo sobre bases de igualdad y no con el criterio de que es una dádiva a nuestro gobierno el reconocimiento como país libre del mundo, porque ese reconocimiento lo obtuvimos con nuestra sangre en los días de la lucha de liberación, lo adquirimos con sangre en la defensa de nuestras playas frente a la invasión yanqui.
Aun cuando nosotros rechazamos que se nos pretenda atribuir ingerencias en los asuntos internos de otros países, no podemos negar nuestra simpatía hacia los pueblos que luchan por su liberación y debemos cumplir con la obligación de nuestro gobierno y nuestro pueblo de expresar contundentemente al mundo que apoyamos moralmente y nos solidarizamos con los pueblos que luchan en cualquier parte del mundo para hacer realidad los derechos de soberanía plena proclamados en la Carta de las Naciones Unidas.
Los Estados Unidos sí intervienen; lo han hecho históricamente en América. Cuba conoce desde fines del siglo pasado esta verdad, pero la conocen también Colombia, Venezuela, Nicaragua y la América Central en general, México, Haití, Santo Domingo."

Essa parte do discurso poderia muito bem ter sido feita hoje, de tão atual. A ida de Guevara à Onu é um de seus momentos mais importantes.

Veja: "Sua vida foi uma seqüência de fracassos", disse a VEJA o historiador cubano Jaime Suchlicki, da Universidade de Miami. "Como médico, nunca exerceu a profissão. Como ministro e embaixador, não conseguiu o que queria. Como guerrilheiro, foi eficiente apenas em matar por causas sem futuro."

É fácil falar mais de uma década após a queda da União Soviética que o socialismo era uma causa sem futuro. Mas em 1967, ano da morte de Guevara, metade do mundo estava sob o regime socialista. Um dos maiores erros que uma pessoa pode cometer ao falar sobre algo histórico é agir como se os indivíduos do período estudado soubessem o futuro e o que iria acontecer de fato. E como vimos no discurso de Guevara na Onu, os problemas permanecem sem solução.

Veja: "Boa-pinta, saía ótimo nas fotografias. A foto do pôster que enfeita quartos de milhões de jovens foi tirada num funeral em Havana, ao qual compareceram o filósofo francês Jean-Paul Sartre - que exaltou Che como 'o mais completo ser humano de nossa era' - e sua mulher, a escritora Simone de Beauvoir."

Os escritores aqui cometem um erro. Deixam escapar uma opinião favorável. E de quem? Uma opinião de um qualquer como Sartre. A reportagem deveria caminhar por esse equilíbrio.

Veja: "O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que impediu até agora a correta observação de alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas. Está passando da hora de essa muralha cair."

Alguns dos eventos mais desastrosos? Como assim? Lutar para mudar é desastroso? Por pensamentos como esse que o brasileiro não larga a novela, o futebol e o carnaval para lutar por seus direitos. Mesmo que não concordemos com o socialismo, nem com a guerrilha, milhares deram a vida por uma causa. É um conflito que moldou a América Latina. Na história não existem heróis nem vilões. A vida é mais complexa que isso.

Veja: "Comunismo - Depois da queda do Muro de Berlim, a ideologia será lembrada sobretudo como a responsável pela morte de 100 milhões de pessoas."

Essa foi uma das que mais frágeis afirmações da reportagem. Utilizando o Almanaque Abril 2007, da mesma editora da revista Veja: 1 bilhão de pessoas ( um quinto da população mundial)  vive com menos de 1 dólar por dia, 2,6 bilhões ganham menos de 2 dólares por dia, 1% da população mundial mais rica tem renda equivalente à dos 57% mais pobres. E o comunismo é o grande assassino? Jornalismo parcial sem responsabilidade. Poderia passar a mesma mensagem de maneira mais inteligente.

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Eu também muitas vezes fico chateado ao ver a imagem do Guevara sendo usada para fins comerciais e por pessoas que não sabem o que ele foi. Porém, em nenhum momento ele pode ser tratado como uma farsa somente porque o capitalismo e a juventude rebelde o tornou popular. Ao apropriar-se da imagem do Guevara, o capitalismo construiu um símbolo.

Muitas pessoas sérias ainda buscam amenizar os efeitos que o capitalismo selvagem está fazendo em nosso mundo, e nada mais normal que muitos insatisfeitos valorizem indivíduos que lutaram contra a supremacia do dinheiro mal distribuído, mesmo que muitas vezes não concordem com suas opiniões nem com as soluções apresentadas.

O jornalismo responsável faz o leitor questionar e procurar soluções para a sua vida. É disso que precisamos e não de manipulação agressiva.