Prisioneiros do Tempo
"Neste dia o governo era povo, e o povo era governo".
A frase acima, retirada de uma entrevista com conhecido governante, pode ser usada como uma ferramenta fundamental para entendermos o que acontece com o discurso político brasileiro nos nossos dias.
Quando foi proferida essa frase? 1930? 1937? 1945? 1964? 1985? 1988? 2002? Não temos como saber, simplesmente por que o discurso dos políticos brasileiros está congelado e imutável desde a subida de Vargas na década de 1930. Os políticos brasileiros são prisioneiros do tempo e de um discurso populista, o que os impede de alcançar a maturidade necessária para governar uma nação.
Em 1948, Getúlio Vargas preparava seu retorno ao poder, que ocorreria em 1951. Ele então, resolveu relembrar no que transformou o dia do trabalho quando era presidente (ditador). Alterando radicalmente o significado original da data, que era de luta revolucionária, Vargas dizia que no primeiro de maio o dia era não só do povo mas também do governo. Essa é a essência do populismo. É um discurso que procura dar a ilusão de que o povo está próximo do poder, mas o que acontece é exatamente ao contrário, estando ele cada vez mais distante. E isso se manteve no Brasil ao longo de todos esses anos, com o agravante de ter se tornado totalmente superficial. Clique aqui e ouça você mesmo a fala do velho caudilho.
Ao longo do século XX, o Brasil teve trinta e oito anos de governos ditatoriais. Estou contando não só o Estado Novo varguista (1937-1945), mas todos os quinze anos da Era Vargas (1930-1945), onde ele centralizou o poder, e os vinte e um anos da Ditadura Militar (1964-1985).
Para piorarmos mais um pouco a situação, acredito que também temos que contar como ausência democrática os anos da República Velha (1889-1930), onde menos de 5% da população tinha direito à voto, e praticamente todas as eleições eram fraudadas e controladas. Ficamos então no século XX com apenas trinta e cinco anos de "liberdade e democracia", com a República Liberal (1946-1964) e a Nova República (a partir de 1985). Logo, os políticos brasileiros ainda não alcançaram a dimensão exata do papel que eles devem prestar a sociedade, e ficam imitando o discurso criado há setenta anos por Vargas, já que é a principal referência que possuem.
É sempre o mesmo discurso de "nós vamos juntos vencer essa jornada", "eu e você", "o povo está comigo", o que acaba tornando todos os partidos polítidos fracos e dependentes do carisma do candidato. Como aconteceu com as vitórias de Jânio Quadros e Fernando Collor. E esse tipo de discurso não é só na esfera federal. De senadores a deputados, passando por governadores e vereadores, não há praticamente diferença.
Tendo um mínimo de otimismo para seguir na vida, acredito que o Brasil vá lentamente sair dessa situação de inacreditável miséria. Só que não vamos estar vivos para ver. Quem sabe no século XXIII. Isso, se ainda existir o planeta, e se quem sabe em 2207 o discurso político seja algo sério, e não um discurso filhote do populismo latino-americano.