Copyright ã 2009 Sandro Massarani. Todos os direitos reservados.
Sandro Massarani apresenta
Além do Cotidiano
a realidade é surreal
Assuntos Diversos:
O Pacífico Povo Brasileiro
Um passado violento, a indústria do lazer e a eterna esperança da melhora.

É comum ouvirmos e lermos através dos meios de comunicação e discursos políticos que o povo brasileiro é pacífico, por isso é um povo maravilhoso e especial, e que com esse comportamento logo o Brasil se tornará uma grande potência. Essa é uma das maiores enganações e manipulações que podem fazer à nossa sofrida sociedade.

Não devemos confundir um povo alegre e acolhedor com pacífico e inerte, e parece que é isso que está ocorrendo atualmente, ou melhor, desde a popularização da televisão e a instalação da sociedade do espetáculo em meados da década de 1970 no país. É preciso acabar urgente com essa imagem de que o brasileiro sempre foi pacífico, pois esse sentimento permanece de certa forma na mente do cidadão tornando-a menos inclinada a tomar ações para o bem comum.

A história do Brasil é uma história de violência e revoltas, não sendo de forma alguma uma história de paz e entendimentos. Durante os séculos de dominação portuguesa, durante o império, durante a regência, durante o início do século XX, milhares de pessoas morreram lutando pelas mais diversas razões. Não estou falando de heróis construídos pela historiografia tradicional, como Tiradentes, e sim do homem comum, da massa, escravo e trabalhador.

O brasileiro infelizmente não sabe a sua história. Não sabe o passado de lutas e sangue escorrido. Como não saber da Cabanagem no Pará, que provocou a morte de mais de 30.000 pessoas, 20% da população? E da Guerra dos Farrapos no sul, que mesmo sendo elitista proclamou não só uma, mas duas repúblicas independentes? A devastação insana e cruel de Canudos? Revolta da Armada, que bombardeou o Rio de Janeiro? Revolta da Chibata, do esquecido negro João Cândido, que capturou os principais navios brasileiros na luta contra os maus tratos sofridos pelos marinheiros? Tem mais, muito mais, inclusive revoltas por causa do aumento do preço da cachaça, o que pode parecer engraçado nos dias hipócritas de hoje, mas decididamente nada de cômico possui.

De 1930 para cá, as lutas foram diminuindo. A ditadura de Vargas ofereceu migalhas ao trabalhador, que aceitou o abraço paternalista do "pai dos pobres". A Guerra Fria irá transformar qualquer insatisfeito em comunista assassino, e para muitos é melhor aceitar governos ditatoriais do que ser um suposto comunista. Com o governo de Dutra (1946-1950) a televisão se instalaria no Brasil, mas o brasileiro ainda participava da política, pois a TV só se popularizaria no final da década de 1960. E o final da década de 1960 trouxe o AI-5 da ditadura militar, com o apoio inicial da classe média, da elite, e das donas de casa, que agora se veriam livres de uma possível "cubanização" do Brasil. Tirando alguns isolados atos de bravura, como as guerrilhas, a luta de poucos estudantes, alguns músicos e jornalistas e a ação de certos membros da igreja, o governo militar praticamente não foi ameaçado. Não estou aqui contando políticos e artistas que se autoexilaram em Paris com tudo do bom e do melhor e disseram que foram perseguidos. Estou falando de quem deu a cara à tapa e ficou para sofrer as consequências.

Definitivamente, depois de 1930 os movimentos rebeldes foram diminuindo. O brasileiro passou a ficar em casa, reclamando e reclamando, sem nada a fazer. Jogou toda a sua responsabilidade nas mãos dos governantes e passou a viver de esperança. Não vou considerar os movimentos vazios das Diretas-Já e dos cara pintadas, que não tiveram influência alguma nos rumos políticos. Em 1985, a esperança era a de que o governo civil fosse "consertar" o país. Em 1989 a esperança passou a ser Collor, jovem e bonito, o caçador de marajás. Esse vai salvar o Brasil. Em 1993, Fernando Henrique, um intelectual. Agora sim o Brasil engrena. Em 2001 as eleições consagraram um proletário. Marx agora está feliz, diziam alguns. O Brasil definitivamente cresceria. E assim vai indo. Estamos esperando, e sentados.

O estabelecimento da indústria do lazer e do espetáculo, que contribuiu para que a televisão se constituisse no eletrodoméstico com maior presença nas residências brasileiras (99%!), agiu decisivamente para eliminar o interesse das massas pela luta política. Quando digo luta política não digo revolução, e sim participação. Brigar pelos direitos mínimos de ter uma vida digna. De pagar mais de 35% do salário em impostos mas ver esse dinheiro retornar em obras públicas, saúde e educação.

O triste é que enquanto no restante da América Latina movimentos populares se intensificam, provocando fortes agitações, aqui nada fazemos. Talvez pelo fato do Brasil ser um país de enormes recursos, o que sempre dá a sensação de que um dia chegaremos lá, sem precisarmos nos esforçar. Então pra que lutar? Se lutarmos perderemos o emprego, e emprego sabe como é, difícil de arrumar.  Se lutarmos podemos não ver mais a novela. E agora? Não podemos esquecer o futebol. Deixar de ver jogo do Flamengo ou Corinthians?

E os crônicos problemas? Deixa que o próximo presidente resolve. Esse sim vai ser bom.


Entre em contato:
massarani@dominantes.com.br